Ansiedade: quando a preocupação começa a ocupar espaço demais na vida
- 8 de ago.
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Sentir ansiedade faz parte da experiência humana. Antes de uma prova, de uma entrevista de emprego, de uma conversa importante ou diante de uma situação desconhecida, é esperado que o corpo e a mente respondam ao que é percebido como incerto ou ameaçador. O coração acelera, os pensamentos se intensificam, surge uma necessidade maior de atenção e o organismo se prepara para lidar com aquilo que está por vir.
O problema não está, portanto, em sentir ansiedade. Ela passa a ser uma questão quando deixa de funcionar como uma resposta pontual diante de determinadas situações e começa a ocupar um espaço cada vez maior na vida cotidiana.
Para algumas pessoas, isso acontece de maneira bastante evidente: crises de ansiedade, sintomas físicos intensos, medo constante ou dificuldade para sair de casa. Para outras, pode aparecer de formas mais silenciosas. Uma preocupação que nunca termina, a necessidade de antecipar todos os possíveis problemas, a dificuldade de descansar porque sempre existe alguma coisa para resolver ou a sensação de que, se não estiver no controle, algo ruim acontecerá.
É justamente por isso que nem sempre é fácil perceber quando a ansiedade deixou de ser apenas uma reação passageira e passou a interferir na maneira como uma pessoa vive.

O que é ansiedade?
A ansiedade está relacionada à antecipação. Ela aparece diante da possibilidade de algo acontecer, e não necessariamente diante de algo que já está acontecendo.
Isso faz com que a ansiedade tenha uma relação importante com o futuro.
“E se alguma coisa der errado?”
“E se eu não conseguir?”
“E se perceberem que eu não sou tão boa quanto imaginam?”
“E se eu decepcionar alguém?”
“E se acontecer alguma coisa com quem eu amo?”
Esses pensamentos não precisam necessariamente ser conscientes ou aparecerem em forma de frases tão claras. Às vezes, a pessoa simplesmente experimenta uma sensação persistente de que existe alguma coisa para a qual precisa estar preparada.
Nesse sentido, a ansiedade pode ser compreendida como uma tentativa de antecipar aquilo que ainda não aconteceu. Pensar nas possibilidades pode oferecer uma sensação momentânea de proteção: se eu imaginar todos os cenários, talvez consiga evitar que algo ruim aconteça.
O problema é que não existe uma quantidade suficiente de planejamento capaz de eliminar completamente a incerteza.
E, quando a tentativa de controlar o futuro se torna constante, o próprio esforço para se sentir segura pode se transformar em fonte de sofrimento.
Quando a preocupação não consegue mais terminar
Uma das características que podem acompanhar a ansiedade é a dificuldade de interromper a preocupação.
A pessoa sabe que está pensando demais, percebe que está cansada e muitas vezes gostaria de conseguir simplesmente “desligar”, mas não consegue.
Ela pode passar horas revisando uma conversa que aconteceu, imaginando o que o outro pensou, antecipando problemas no trabalho ou pensando em situações que ainda nem aconteceram.
Por isso, dizer para alguém ansioso simplesmente “não pensa nisso” costuma ser pouco efetivo. A preocupação não é apenas uma escolha consciente de pensamento. Ela pode estar relacionada a uma tentativa mais profunda de lidar com sentimentos de insegurança, medo e falta de controle.
Em alguns casos, inclusive, a preocupação pode parecer produtiva.
Pesquisar muito antes de tomar uma decisão, conferir repetidamente uma informação, pedir confirmação para outras pessoas ou imaginar todas as possibilidades de uma situação podem produzir uma sensação de preparação.
Mas existe uma diferença importante entre se preparar para alguma coisa e precisar eliminar toda possibilidade de erro antes de conseguir agir.
Quando a segunda situação acontece, a ansiedade pode começar a restringir a vida.
O corpo também participa da ansiedade
A ansiedade não acontece somente “na cabeça”.
Como envolve uma resposta de alerta do organismo, ela pode produzir manifestações físicas importantes: aceleração dos batimentos cardíacos, tensão muscular, alteração na respiração, sensação de aperto no peito, desconforto gastrointestinal, tremores, sudorese, tontura, dificuldade para dormir e sensação de inquietação.
Em uma crise de ansiedade, esses sintomas podem ser tão intensos que a própria reação corporal passa a ser interpretada como uma ameaça.
O coração acelera e a pessoa pensa que há algo errado. A respiração muda e surge o medo de perder o controle.
O corpo fica em alerta e isso confirma a sensação de que alguma coisa perigosa está acontecendo. Forma-se, então, um ciclo no qual o medo aumenta os sintomas físicos e os sintomas físicos aumentam o medo. Por isso, compreender a ansiedade também envolve compreender o corpo e a maneira como a pessoa interpreta aquilo que sente.
Ansiedade e necessidade de controle
Existe ainda outra dimensão importante: a relação entre ansiedade e controle.
Quando não sabemos o que vai acontecer, podemos tentar diminuir a insegurança controlando aquilo que está ao nosso alcance. Até certo ponto, isso é saudável e necessário. Planejar uma viagem, organizar uma tarefa ou se preparar para uma situação difícil são formas possíveis de cuidado.
Mas algumas experiências não podem ser completamente controladas.
Não podemos controlar exatamente o que outra pessoa pensa sobre nós. Não podemos garantir que nunca vamos errar. Não podemos prever todas as mudanças que acontecerão ao longo da vida. Também não conseguimos impedir completamente perdas, frustrações e acontecimentos inesperados.
Para algumas pessoas, justamente essa impossibilidade de controle pode ser especialmente difícil de suportar.
Nesse contexto, a ansiedade pode levar a uma busca constante por garantias:
“tenho certeza de que vai dar certo?”
“você acha que ele está bravo comigo?”
“e se acontecer alguma coisa?”
“será que eu fiz alguma coisa errada?”
O alívio produzido pela garantia costuma ser real, mas temporário. Logo surge uma nova dúvida que precisa ser respondida.
A questão deixa de ser apenas “o que está acontecendo?” e passa a ser “por que eu preciso ter tanta certeza de que nada vai dar errado para conseguir seguir em frente?”.
Quando a ansiedade começa a limitar a vida
Talvez uma das perguntas mais importantes não seja simplesmente “quanto de ansiedade eu sinto?”, mas “o que estou deixando de viver por causa dela?”
Uma pessoa pode começar a evitar situações sociais porque teme ser julgada. Pode deixar de se candidatar a uma vaga porque acredita que não está preparada o suficiente. Pode adiar decisões importantes esperando sentir-se completamente segura. Pode evitar conversas difíceis para não lidar com a possibilidade de rejeição.
A curto prazo, evitar pode trazer alívio. A pessoa não precisou enfrentar aquela situação e, portanto, não sentiu o desconforto que imaginava.
Porém, com o tempo, a evitação pode ensinar algo ao próprio sujeito: que ele só está seguro quando evita determinadas experiências. É assim que a ansiedade pode ir diminuindo o tamanho da vida sem necessariamente fazer isso de maneira evidente. A pessoa continua trabalhando, estudando, saindo e mantendo relações, mas começa a fazer cada vez menos coisas que gostaria de fazer.
Ansiedade não significa fraqueza
É comum que pessoas que sofrem com ansiedade se sintam frustradas consigo mesmas.
“Eu sei que não deveria estar pensando nisso.”
“Todo mundo consegue fazer isso, por que eu não consigo?”
“Eu estou exagerando.”
“Eu deveria simplesmente me controlar.”
Esse tipo de julgamento pode acrescentar uma segunda camada de sofrimento à experiência inicial.
A ansiedade não é uma escolha e não significa falta de força de vontade. Ao mesmo tempo, compreender que ela não é uma escolha não significa que a pessoa esteja condenada a permanecer para sempre nessa forma de funcionamento.
O sofrimento pode ser compreendido, elaborado e tratado.
E, para isso, muitas vezes é necessário ir além da tentativa de eliminar imediatamente todos os sintomas.
O que a psicoterapia pode oferecer?
Na psicoterapia, a ansiedade não precisa ser tratada apenas como um conjunto de sintomas que precisa desaparecer o mais rápido possível. Ela também pode ser tomada como uma experiência que merece ser compreendida.
O que exatamente provoca medo?
O que a pessoa imagina que acontecerá se determinada situação fugir do seu controle?
Por que errar parece tão difícil?
O que está em jogo quando existe tanto medo de decepcionar alguém?
Que lugar a cobrança ocupa nessa história?
Quais experiências anteriores podem ter contribuído para a maneira como essa pessoa lida hoje com insegurança, dependência, frustração ou incerteza?
Essas perguntas não têm respostas universais. Duas pessoas podem apresentar sintomas semelhantes de ansiedade e, ainda assim, estarem vivendo conflitos muito diferentes. Por isso, o trabalho psicoterapêutico não consiste simplesmente em ensinar alguém a “parar de pensar demais”. Ele pode envolver a construção de um espaço no qual seja possível falar sobre aquilo que, muitas vezes, aparece apenas como preocupação, medo ou sintoma.
Aos poucos, aquilo que parecia apenas uma sensação difícil de controlar pode começar a ganhar significado.
E compreender o que está por trás da ansiedade pode abrir outras possibilidades de relação consigo mesmo, com os outros e com aquilo que ainda não é possível prever.
Quando procurar ajuda?
Não é necessário esperar que a ansiedade se torne insuportável para buscar psicoterapia.
Pode ser importante procurar ajuda quando a preocupação está ocupando grande parte do dia, quando os sintomas interferem no sono, nos estudos, no trabalho ou nos relacionamentos, quando situações importantes começam a ser evitadas ou quando existe uma sensação persistente de estar sempre em estado de alerta.
Também pode ser importante buscar acompanhamento quando a pessoa percebe que está vivendo em função da tentativa de evitar que alguma coisa dê errado.
A ansiedade faz parte da vida porque o futuro nunca é completamente conhecido. O objetivo do cuidado psicológico não precisa ser chegar a um estado no qual nenhuma preocupação ou insegurança exista.
Talvez seja mais interessante construir, pouco a pouco, uma relação diferente com aquilo que não pode ser totalmente controlado.
Porque viver não significa ter certeza de que nada dará errado.
Significa também poder continuar vivendo mesmo quando não temos todas as garantias.


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