TDAH em mulheres
- 8 de ago.
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Em mulheres, o transtorno pode aparecer de maneiras menos óbvias. Em vez de uma criança que "não para quieta", pode existir uma menina que sonha acordada, esquece compromissos, perde objetos, tem dificuldade para organizar tarefas ou precisa se esforçar muito mais do que as outras pessoas para acompanhar a rotina.
Quando essas dificuldades permanecem sem compreensão, é comum que a mulher passe a interpretá-las como defeitos pessoais.
"Eu sou preguiçosa."
"Eu nunca consigo terminar nada."
"Eu sou desorganizada."
"Eu não tenho disciplina."
"Por que as outras pessoas conseguem fazer isso e eu não?"
Com o tempo, essas experiências podem afetar profundamente a autoestima.

Como o TDAH pode aparecer em mulheres?
O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento que pode envolver dificuldades relacionadas à atenção, impulsividade e/ou hiperatividade. Entretanto, sua manifestação é bastante variável.
Algumas mulheres apresentam principalmente dificuldades de atenção e organização. Outras vivenciam inquietação, impulsividade e dificuldade para regular emoções. Também pode existir uma diferença importante entre aquilo que acontece internamente e aquilo que as outras pessoas conseguem perceber. Uma mulher pode parecer extremamente organizada enquanto, por dentro, está gastando uma quantidade enorme de energia para manter tudo sob controle.
Ela pode criar listas, alarmes, aplicativos e inúmeros sistemas para não esquecer compromissos. Pode revisar várias vezes uma mensagem antes de enviá-la. Pode passar horas tentando começar uma tarefa simples porque não consegue encontrar o "ponto de partida".
Por fora, parece que está funcionando.
Por dentro, pode existir uma sensação constante de estar atrasada em relação à própria vida.
"Mas eu consigo me concentrar quando quero"
Uma das experiências que podem confundir mulheres com TDAH é conseguir passar horas concentradas em determinadas atividades e, ainda assim, ter muita dificuldade para iniciar ou concluir outras.
Isso pode acontecer porque a atenção não funciona simplesmente como uma capacidade que a pessoa possui ou não possui.
Interesse, novidade, urgência, recompensa e estímulo podem influenciar muito a capacidade de permanecer envolvida em uma atividade.
Por isso, ouvir "se você consegue passar horas fazendo aquilo que gosta, então não pode ter TDAH" é uma simplificação.
A sensação de nunca fazer o suficiente
Para algumas mulheres, a história começa muito antes de qualquer diagnóstico. Uma criança que constantemente esquece materiais pode ouvir que é irresponsável. Uma adolescente que deixa trabalhos para a última hora pode ser chamada de preguiçosa.
Uma adulta que se atrasa ou esquece compromissos pode começar a acreditar que não é confiável. Aos poucos, dificuldades específicas passam a ser interpretadas como características de personalidade.
E talvez uma das partes mais dolorosas seja justamente essa: não é apenas lidar com a dificuldade de organização, atenção ou impulsividade. É começar a acreditar que existe alguma coisa errada com quem você é.
Mulheres com TDAH também podem desenvolver estratégias para esconder suas dificuldades
Algumas mulheres passam boa parte da vida compensando aquilo que sentem que não conseguem fazer "naturalmente".
Elas se esforçam demais, revisam tudo várias vezes, tentam antecipar todos os problemas e podem se cobrar constantemente. Esse esforço pode funcionar por algum tempo. Mas funcionar não significa necessariamente estar bem.
Quando a quantidade de demandas aumenta (faculdade, trabalho, relacionamentos, casa, vida financeira, responsabilidades) as estratégias que antes davam conta de tudo podem deixar de funcionar.
É nesse momento que algumas mulheres começam a procurar ajuda e percebem que passaram anos tentando resolver sozinhas uma dificuldade que nunca compreenderam completamente.
TDAH e autoestima
Quando uma pessoa passa anos ouvindo que precisa simplesmente "se esforçar mais", é possível que comece a acreditar nisso.
A terapia, nesse sentido, não precisa servir apenas para aprender técnicas de organização.
Também pode existir um trabalho de compreender a relação que essa mulher construiu consigo mesma a partir das experiências que viveu.
O que você aprendeu sobre você quando esquecia coisas?
O que passou a pensar sobre si depois de tantas tarefas inacabadas?
Quanto da sua autoestima foi construída a partir da sensação de estar sempre tentando alcançar alguma coisa?
Essas perguntas podem ser tão importantes quanto aprender a organizar uma agenda.
Nem toda dificuldade significa TDAH
É importante lembrar que dificuldade de concentração, procrastinação, esquecimento e desorganização podem aparecer por diferentes motivos.
Ansiedade, depressão, privação de sono, estresse e outras condições também podem interferir na atenção e no funcionamento cotidiano. Por isso, identificar alguns desses sinais não significa automaticamente ter TDAH.
O diagnóstico deve ser realizado por um profissional qualificado, a partir de uma avaliação adequada e considerando a história de cada pessoa. Mais importante do que encontrar rapidamente um nome para aquilo que acontece é conseguir compreender a própria experiência com mais cuidado e menos julgamento.
Quando procurar ajuda?
Se você passou anos pensando que é simplesmente preguiçosa, desorganizada, esquecida ou incapaz de manter uma rotina, talvez valha a pena olhar para essa história com mais atenção.
Não para encontrar uma justificativa para tudo. Mas para entender melhor como você funciona, quais são suas dificuldades e quais estratégias podem fazer sentido para a sua realidade. Principalmente, para separar aquilo que você realmente tem dificuldade de fazer daquilo que aprendeu a acreditar sobre quem você é.
A psicoterapia pode ser um espaço para investigar essas questões, compreender experiências anteriores e construir uma relação menos punitiva consigo mesma.


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